QUILOMBO SÍTIO VELHO

A Comunidade Remanescente de Quilombo “Sítio Velho” se originou na década de 80, do século XIX, quando o caçador Aniceto, morador de Cajueiro de Negros (comunidade formada por negros libertos ou ex-escravos e seus descendentes, localizada no Ceará), chegou ao local onde hoje a comunidade ainda resiste.

Devido às dificuldades provocadas pela seca, a população nordestina, em muitos momentos, se vê obrigada a migrar em busca de melhores condições de vida. Provavelmente, Aniceto em uma de suas viagens em busca de alimentos encontrou uma região próspera, com um olho d’água e área para plantar. Aniceto retornou para Cajueiro dos Negros/CE, mas não comentou com ninguém sobre o achado. Periodicamente Aniceto retornava ao “oásis”; saia para caçar e voltava para Cajueiro após alguns dias. Voltava visivelmente bem alimentado e com roupas limpas, os moradores de Cajueiro dos Negros não entendiam como isto era possível. Dispostos a descobrir o segredo de Aniceto, um grupo de moradores seguiu o caçador sem que o mesmo percebesse. Assim chegaram ao “oásis” de Aniceto, descobriram que no local o caçador  cultivava algumas roças e já havia realizado algumas benfeitorias. A partir daí, passou a se constituir no local um núcleo habitacional que deu origem à comunidade Sítio Velho.

Localização e acesso:

A Comunidade Sítio Velho está localizada a 24 Km do município de Assunção do Piauí, que por sua vez dista 281 Km de Teresina e limita-se com o Ceará. De difícil acesso, porque a estrada tem uma parte carroçal e outra arenosa, considerada ruim pelos moradores e constatada pela equipe visitante.

Aspectos geográficos:

Situada na Chapada Geral entre os municípios de Assunção do Piauí, no Estado do Piauí e o município de Quiterianópolis no Ceará, na micro-região de Campo Maior. Localizado no bioma da caatinga, com clima tropical semi-árido, com chuvas distribuídas durante o ano de forma irregular, com períodos secos em torno de sete a oito meses, com pluviometria média de 120 mm, segundo dados da prefeitura de Assunção do Piauí.

Aspectos demográficos e organização espacial:

Levantamento realizado através de questionário aplicado na comunidade resultou em 118 homens; 113 mulheres e 168 crianças. Resultando em 399 habitantes. Ressaltamos que falta cadastrar 10 famílias.

Infra-estrutura

A comunidade Sítio Velho não possui energia elétrica, mas a rede trifásica, passa a 18 Km de distância do local, em território cearense, segundo informação da comunidade. Utilizam lamparinas a óleo diesel. A água não é canalizada.  Existem dois poços tubulares, um riacho temporário, um poço cacimba e um olho d’água. Deslocam-se cerca de 1 km para buscar água potável. Utilizam  para o consumo humano no olho d’água e, para o banho, retiram água da cacimba localizada a 200 metros do centro do povoado. Quanto ao saneamento básico inexiste qualquer tipo de fossa, a comunidade usa o céu aberto para as suas necessidades fisiológicas.

A única escola da comunidade atende crianças de 07 a 14 anos, em três turnos de estudo e também a educação de jovens e adultos. Para os jovens que cursam o ensino médio, há um carro, tipo picape, que transporta esses jovens da entrada da Comunidade até a escola no centro de Assunção do Piauí. Possui uma casa paroquial que funciona também como Centro Comunitário.

Existem células de energia solar para alimentar a bomba do poço, que enche uma caixa d’água e para a escola. Um grupo gerador de energia a diesel também para a escola, ligar um aparelho de TV, para a utilização do bar e, quando tem festa, o clube.

A equipe de Agentes de Saúde do programa de Saúde da Família faz uma visita semanal e o médico faz um atendimento mensal.

Habitação

Encravada no fundo do vale do Riacho dos Quatis, com cerca de 80 habitações, construídos com tijolos de adobe, fabricados com terra retirada de barreiros no próprio local. Terra utilizada pura sem aditivos, apenas misturada à água para em seguida ser moldada em formas de madeira revestidas de fórmica. Os adobes moldados nas dimensões de 26 x 13 x 6,5 cm são deixados ao relento, sob o sol, de um dia para o outro, para serem imediatamente utilizados na construção das habitações. A argamassa de assentamento dos tijolos e de reboco interno é a mesma utilizada para a confecção dos tijolos de adobe. Porém, são poucas as que possuem o luxo do reboco, a grande maioria das construções se encontra totalmente sem essa proteção.

No soerguimento das paredes são utilizadas duas fiadas de tijolos, tipo parede dobrada, a partir de uma cava feita no chão, com cerca de 25 cm de profundidade. Sem nenhuma preocupação com o preparo ou a impermeabilização dos tijolos de adobe, estes são utilizados à guisa de baldrame. As paredes vão sendo erguidas a partir dessas cavas até cerca de 2,80 m de altura. Também não são encontradas calçadas no perímetro dessas construções, com exceção da calçada de frente, feita de adobe ou pedra, servindo de arrimo, devido à localização das casas em área acidentada de declive e com acabamento cimentado. Devido a essa localização em terreno íngreme, o interior das habitações precisa receber regularização com terra batida, permanecendo este como piso da maioria dos cômodos, à exceção, às vezes, do primeiro cômodo das residências, a sala, onde encontramos um cimentado liso.

Nos casos onde as famílias possuem melhor poder aquisitivo, o exterior da casa possui reboco de terra misturada a uma pequena quantidade de cimento, não havendo registros de retração ou descolamento desse reboco.

É quase nenhuma, as janelas encontradas nessas habitações, devido ao baixo poder aquisitivo dos moradores. Quando ainda encontradas, são feitas de madeira da região, lavradas a machado e facão.

A cobertura de todas as habitações foi substituída por telha cerâmica, ao contrário da palha de carnaúba originalmente utilizada. A madeira da estrutura também é encontrada na região: cipaúba para as linhas, terças e caibros e mameleiro para as ripas.

O barreamento pra a confecção do adobe é feito no local da obra e os tijolos são produzidos pelos donos das casas, no sistema de autoconstrução ou mutirão.  Há uma estimativa de produção de 400 tijolos x dia/homem. Em alguns casos são contratados pedreiros locais para levantar a casa, depois dos tijolos já fabricados.

Apesar de toda a simplicidade de produção e execução das casas, feitas de adobe do local, estas são bastante resistentes às intempéries, havendo registros de casas construídas à cerca de 50 anos e outras que se encontram abandonadas, sem cobertura, esperando serem concluídas, a mais de dois anos, expostas ao sol e à chuva e ainda em bom estado de conservação. A baixa pluviosidade da região, 120m3 / ano, favorece a boa resistência do adobe que não sofre muito os rigores e desgastes causados pela chuva, mas sem dúvida, esse é um material e um processo construtivo bem adaptado a essa região e a essa comunidade.

Atividades Sócio-culturais:

A principal religião é a católica. A prática religiosa restringe-se à reza do terço ao final de alguma reunião dos membros da comunidade e a realização de missas durante os festejos religiosos, que acontecem nos meses de maio e dezembro em homenagem a Nossa Senhora da Conceição. A capela, erguida pelo antigo bispo de Campo Maior, Dom Abel, pertence a esta arquidiocese. Quinzenalmente há cultos de uma Igreja Evangélica (Assembléia de Deus), sediada na cidade de Assunção. A umbanda é praticada implicitamente por poucas pessoas. Nas atividades de lazer os homens e as crianças (de ambos os sexos) praticam o futebol. São também realizadas raramente festas dançantes em um pequeno espaço muradas. Os moradores também ouvem programas de rádio e assiste aos programas de televisão em um aparelho ligado a bateria.

Aspectos políticos sociais:

Os moradores de Sítio Velho vivem esquecidos de tudo e por todos, ou seja, das autoridades públicas responsáveis. As pessoas da comunidade já adquiriram certo grau de consciência política, manifestam-se e dizem que não irão votar no candidato indicado pelo líder político ou outro que venha apresentar-se a eles, alega que vivem isoladas sem nenhum benefício do poder público e os candidatos as eleições só aparecem lá quando está próximo ao pleito para pedir o voto. A comunidade tem uma prática solidária, onde distribuem alimentação para as pessoas que não possuem. Ou seja, apesar das dificuldades, eles compartilham o pouco que conseguem para sobreviver. Atualmente, existe um vereador na comunidade, que representa os interesses da comunidade. A conscientização sobre a construção da identidade negra da comunidade não acontece de maneira satisfatória, não existe discussão sobre racismo e cidadania na comunidade. Apesar disso, conseguem se organizar em associação como a Associação dos Pequenos Produtores da Comunidade Sítio Velho – CNPJ 02.640.366.0001-50, fundada em 10.02.1998, registrada em 19.08.2004, com 92 (noventa e dois) associados e atendendo a 86 famílias, sob a presidência de Francisco Pereira de Sousa (Cieldo).

Aspectos Econômicos:

Na divisão de trabalho, as mulheres de distintas faixas etárias sempre ficam responsáveis pelas tarefas domésticas, como, por exemplo, cuidam das crianças e quando encontram lenha transportam-na e também fazem trabalho de roça. Elas são responsáveis pelo abastecimento d’água de sua residência. Os homens executam trabalho de roça, caça e construção de casas. Nas épocas de plantio e colheita, todas as pessoas são envolvidas no trabalho da roça. O “trabalho alugado” nas fazendas próximas é outra atividade econômica. Os moradores também recebem o auxílio financeiro das aposentadorias que recebem mensalmente, na cidade de Assunção do Piauí, a 24 km da comunidade.

A comunidade não possui nenhum tipo de máquina e equipamento de apoio a produção. Durante a estadia da equipe técnica, a Fundação Palmares enviou uma forrageira e um motor a diesel para a futura casa de Farinha.

Praticam agricultura de subsistência como feijão, mandioca macaxeira e milho. Somente o feijão é produzido em maior escala e um pequeno excedente vendido nos municípios circunvizinhos. Galinha e porco são os animais domésticos mais criados, somente para sua subsistência. A única manufatura produzida em escala pequena para consumo interno é a cuia e o tijolo de adobe. Os gêneros alimentícios são, em sua maioria, adquiridos na sede do município de Assunção do Piauí de forma individual.

Praticam uma agricultura manual, desde a preparação do solo até a colheita, utilizando o adubo orgânico e o inseticida, sem assistência técnica. Cultivam terras alheias, através do sistema de tarefa, cada uma possui 25 braços de lado. As terras de Sítio Velho não são regularizadas, ou seja, com situação fundiária indefinida, compreendem aproximadamente 03 (três) hectares. Segundo moradores elas foram compradas pelo Bispo de Campo Maior, Dom Abel Alonso Nunez, de um dos fazendeiros das redondezas, que permite que os habitantes façam uso da terra.

Título Quilombola

No início do ano de 2005 a Prefeita de Assunção do Piauí Maria Batista de Moura designou o Assessor Especial José Caetano da Silva para realizar dois dias de trabalho na Comunidade Sítio Velho, no sentido de fazer um breve diagnóstico da comunidade, que depois de realizado, o documento foi encaminhado juntamente com um expediente ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome – MDS, na época o então Ministro Pátrus Ananias, solicitando a INCLUSÃO da referida comunidade no rol das comunidades quilombolas do Brasil, que depois de 60 dias lá estava o Sítio Velho reconhecido nacionalmente como “Comunidade Quilombola Sítio Velho”.

Hoje (2017), a Comunidade Quilombola Sítio Velho possui o “documento de propriedade” da área onde eles moram, rede de água encanada, banheiro nas residências, telefone público, rede de energia elétrica, escola de ensino fundamental modelo, construção de casas pela CAIXA e pavimentação da ladeira de chegada a comunidade, tudo isto, graças ao tratamento dado pelo Governo Federal às comunidades quilombolas em parceria com CAIXA ECÔNOMICA FEDERAL, INCRA, FUNASA, CONAB/PI, Fundação Zumbi dos Palmares, FETAG/PI, Governo do Estado do Piauí, MDS, Luz Para Todos, STTR de Assunção do Piauí e Prefeitura de Assunção do Piauí e Movimento Social COISA DE NEGRO (Piauí). 

MAPA - SÍTIO VELHO - ASSUNÇÃO DO PI.pdf 

Fonte/Foto/Redação: José Caetano da Silva / Conceição - CAIXA - GIDUR-TE .

        

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